29 de mar. de 2017

Odeio ser mulher!

Eu nasci desconstruída sim!

Eu não nasci com a preocupação de usar ou não o sutiã. Eu não sabia que os bicos dos meus seios seriam tão polêmicos, eu nem os percebia.

Quando criança, a preocupação da depilação não existia. Era sobrancelha junta, perna fofinha. Só a axila que me incomodava pelo suor, mas não porque alguém ia me olhar estranho se eu erguesse os braços.

Eu usava roupas por conforto. Meu shorts curto, era para não passar calor, e só. Não era de puta, não era de piriguete, não era motivo para os meninos passarem a mão em mim.

A bola e a boneca, eram brinquedos. Apenas brinquedos. Eu não os rotulava entre brinquedos de menina e brinquedos de menino.


Mas aí "eu virei mocinha" Meu pai, além de sair contando pra todo mundo, me disse que amizade de menino não existia.

Comecei a me tornar "mulher". A mulher que a sociedade queria. Mas cheia de "pequenos problemas"...

Eu jogava futebol com os meninos, e como eu ganhava, passaram a dizer que eu jogava que nem homem. Não deu muito tempo para conversarem particularmente com minha mãe. Perguntaram se eu era lésbica... Ela deu uma bela e educada resposta, mas por um tempo eu fui a Maria Sapatão.

Meu pai me disse que meu vestido não era descente.
Comecei a usar calça, era legging, eu não tinha noção do meu corpo, mas os meninos na esquina, me chamaram de bucetuda.

Eu não sabia o que era bucetuda, capôzuda. Caí na besteira de perguntar pro meu pai. Não pude mais usar minhas confortáveis calças.

Tinha que ser jeans. Mas o jeans levantava o bumbum. O jeans machucava minha pele alérgica.

Eu menstruei cedo. 9 anos, vieram espinhas, os seios cresceram. Me zoavam porque eu não usava sutiã. Me zoaram no dia que vazou o sangue do absorvente na aula de educação física. Eu fui a porca, eu virei a nojenta.

Passei a usar calças jeans masculinas, maiores que o meu tamanho. Nos dias de menstruação, eu colocava um shorts por baixo, para segurar o absorvente no lugar...

O Maria Sapatão voltou. Surgiu o "ela nunca provou piroca, piroca faria ela virar mulher"

Eu não tinha nem 15 anos. Eu não queria alisar o cabelo. Mas me zoavam porque ele era ondulado e armado.

Eu não me incomodava com os pelos do meu braço, das minhas coxas, eram fininhos e castanhos pro loiro. Mas me chamaram de mulher macaco. As meninas me viram tomando banho, contaram para todos sobre meus pelos.

Eu me raspei, me cortei, me feri com a gilete.

Meus pais se separaram. Finalmente. Minha mãe ia voltar a viver. Novamente me zoaram. Eu era a filha de pais separados. A mudança das minhas notas era por conta da separação.

Nãããããão!!! A mudança era porque eu estava cansada de tentar fazer tudo certo. A mudança era porque eu não aguentava mais regras. A mudança era, porque eu não aguentava mais meu pai e nem percebia que não o aguentava.

Eu entrei num primeiro relacionamento sério. Eu não podia olhar pra blusa na vitrine do shopping, porque estava secando o vendedor.

Eu não podia usar a saia rodada, porque estimulava a imaginação dos amigos dele.

Nós saímos, ele colocou 30 manos no carro, o pneu furou. Mas eu tinha chamado pra sair, eu precisei pagar o pneu dele porque era minha culpa.

Eu tinha espinhas, quando meu rosto limpasse, eu ia ficar lindinha.

Meu cabelo era vermelho, pra ele se eu ficasse loira eu ficaria linda.

Depois de muito alerta, eu me toquei da merda de relação que eu tinha me enfiado. Demorou 4 anos.

Eu chamava as meninas de puta, de piriguete. Porque era de tudo isso que tinham me chamado.

Eu julgava os decotes, as roupas, a maquiagem, o cabelo. Porque era tudo isso que tinham julgado em mim.

Um novo relacionamento surgiu. E eu me apaixonei porque ele era carinhoso. Porque ele sabia conversar, porque tínhamos interesses em comum. Porque ele não gostava de funk, porque ele cheirava bem. E porque ele era bonitinho rs

Mas os motivos que me fizeram "falling in love" mostram o desastre dos meus relacionamentos anteriores.

Porque até então, eu nunca tinha me sentido bonita. Eu nunca tinha me sentido suficiente.

Eu aprendi, que mulher podia usar a roupa que quisesse. Eu descobri que tudo bem meu cabelo da cor que eu quiser. Que tudo bem que tem uma espinha no meu queixo. Tudo bem também aquele pelo único e ridículo que insiste em nascer.

Eu ainda estou aprendendo a me desconstruir. Assim como quando eu era criança. Muitas vezes eu ainda não me sinto suficiente. Ainda não me sinto capaz. Mas eu ainda vou voltar a ser com o a Vivian criança.

Mesmo que os dias tentem me derrubar...

Assim como hoje, que fui para a feira fotografar, de preto, meia calça preta, shorts preto por baixo do vestido. O decote não era grande, quase nada aparente. O vestido não era curto. Mostrava parte das costas, nada mais do que isso. Nada de transparência. Minha história de vida gordofóbica, me fez acreditar que eu poderia andar pelas ruas sem chamar a atenção, afinal, estou gorda, ninguém vai mexer comigo, imagina.

Minhas amigas, colegas, conhecidas que são gordinhas são lindas. Eu realmente as acho linda. Mas eu gordinha? Jamais, sou horrorosa do jeito que estou. Me sinto assim! Porque? Porque cresci ouvindo isso! Mais uma vez, como disse, nasci desconstruída, virei uma cagada ambulante, ainda estou me desconstruindo.

Voltando, foram 5 minutos no farol, esperando para atravessar. 5 minutos que me fizeram  relembrar tudo isso que relatei e o que não relatei também. Eu ouvi desde um "boa tarde lindeza", até um "quanto é a hora?".


Teve "shhhhhh", teve o "eita lá na minha cama", teve o "que puta gostosa". Os caras passavam de carro e faziam caras e bocas, ofensas e mais ofensas. Os caras do posto da frente riam e apontavam.
Não era um lugar perigoso. Eu só queria atravessar a rua. O farol só demorou pra abrir. Eu só gosto/prefiro andar a pé.

Eu estou cansada. Eu estou revoltada até agora! Eu quero respeito! Eu odeio ser mulher. Eu não queria ter nascido mulher!

Ainda tenho que ouvir que feminismo é besteira! AHHHHHHH PORRAAA! Não, não é besteira.
Eu ainda tenho que ouvir que não devia ter saído de vestido! CHE-GA! Eu não quero ler que pra resolver todos os problemas [pois acreditem, o assédio é o menor deles] tenho que fazer que nem a Tamy. Nãããoo cara, ele não se chama mais Tamy, ele  ainda sofre muito! Ele ainda não é aceito. Essa não é a solução!



Estou cansada de lutar todo dia, estou cansada de cortar todo dia uma raiz machista que me foi plantada. Estou cansada de que ser sempre a boa mãe, a boa esposa, a boa mulher, estou cansada de trabalhar com fotografia ganhando uma miséria, enquanto alguns colegas homens fazendo um trabalho bem pior, ganham muito mais. Eu estou cansada de ser cobrada sobre quando vou voltar para o CLT. Estou cansada de ter que provar coisas, TO-DOS OS DIAS!


Estou cansada. Muito cansada. E não é físico!